Salvador é uma cidade que precisava de um festival de artes cênicas como o I Festival Nacional de Teatro da Bahia. E não é preciso muito argumento para convencer as pessoas disso, basta apelar para a grande efervescência cultural, que nos coloca como um pólo produtor de grandes e diversificados espetáculos.
Não bastasse esta característica quase única no país – de produzir e respeitar a diversidade cultural e o pluralismo -, nossa cidade também tem como trunfo o grande e fiel público de teatro. Grande sim, senhor. Por que temos uma produção contínua em diversos espetáculos, com públicos recordes e assíduos para aquelas obras que valem a pena – e sobretudo, que respeitam a realidade socio-econômica da cidade.
Então, somado tudo isso, seria de se esperar que um evento como o festival tivesse aceitação garantida entre o circuito de produtores e patrocinadores culturais da cidade. Ledo engano.
Com um orçamento inicial de R$ 396 mil - para custear despesas de divulgação, pauta nos teatros, alojamento e transporte das companhias e grupos visitantes - a organização do Festival recebeu um ‘bolo’ do patrocinador e teve que arcar com os custos todo sozinho.
As verbas utilizadas para honrar os contratos e a programação eram recursos próprios da Cooperativa de Teatro, a organizadora do evento, e não ultrapassam a casa dos R$200 mil. Ou seja, a programação que hoje é rica e muito eclética, poderia ser ainda melhor.
Aqui cabe ressaltar que esta verba vem do Fundo de Cultura, da Secretaria Estadual de Cultura – aquela mesma demonizada por casos de abandono a outros espaços culturais.
De toda forma, o Festival é mais um exemplo emblemático de que não faltam a criatividade e iniciativa do baiano, sobretudo no teatro, mas sobram barreiras graves (= falta de dinheiro) para concretizar todo este potencial.
Este é um problema histórico de produções. De certo, muitos produtores da moda reclamam as pitangas por falta de recursos, mas sempre esbanjam grandes megas espetáculos repletos de patrocínios culturais – muitos deles atráves das leis de incentivo e renúncia fiscal.
Para estas produções – e principalmente, para este pequeno grupo de produtores – nunca faltou recursos, apesar dos choramingos. As empresas que deduzem os impostos com estes patrocínios são reféns cômodos deste pequeno círculo, e não ousam em apostar em novas e importantes iniciativas.
Se a eles não interessa a reflexão sobre a quem se destinam as obras; sobre a importância social dos projetos; sobre o potencial cultural das inovações, a nós, o fiel público baiano, pesa a responsabilidade deste julgamento.
Não podemos desperdiçar a oportunidade de conhecer tantas manifestações artisitcas importantes. Principalmente, não podemos deixar de apoiar a iniciativa; comparecer ao teatro; indicar e fazer campanha. Esta é a nossa maior contribuição para aqueles que se dedicam de forma plena ao teatro, que se esforçam para vencer barreiras e trazer até nós mais arte, mais emoção e muito mais cultura.